Um guia racionalista para a religião

Se a religião fosse uma língua, toda minha vida eu lutei com a gramática dela. Eu tive dificuldade em conjugar algumas das crenças centrais sobre deus de modo que fizessem sentido para mim. Em muitos momentos optei pelo silêncio, diversas vezes evitando completamente o assunto.

Ainda assim, parte de mim ansiava/anseia por falar sobre isso – deus, fé, religião e o que são contradições aparentemente irreconciliáveis entre os três. Mas tenho optado cada vez mais por enfrentar esse receio.

Desenvolver uma espécie de mapa para mim sobre como falar sobre religião e, mais importante ainda, reconhecer padrões em como os outros falam sobre isso. Não estou aqui para argumentar certo ou errado, verdade ou falsidade, mas apenas aplico o princípio básico da empatia – quero ser capaz de explicar aos outros as origens da minha visão e compreender aqueles cujas visões são diferentes das minhas (devo salientar que estou cético quando ao sucesso dessa abordagem).

Comecemos com a premissa geral de que todas as pessoas têm direito às suas crenças, desde que essas crenças não favoreçam ações tangíveis que prejudiquem os outros. Eu deveria alertá-lo aqui que não sou um especialista em teologia, embora quem me conhece afirme que eu tenha dissecado muitos textos religiosos, isso é subjetivo. Vou desenhar a imagem de nossa conversa a partir de rotas de diálogos que tive com pessoas de múltiplos sistemas de crença, alguns muitos semelhantes e outros muito opostos. Tal mapeamento mental levou-me à inclinar-me para certos insights.

Primeiro, quero deixar de lado a argumentação de uma verdade absoluta – se deus existe ou não, em caso afirmativo, quem é ela ou ele ou o que ou quem – esbarrei em algo que chamo de “locum refrigérii”, que é o cerne de um sistema de crenças, é a ansiedade, a necessidade de reduzir a dissonância cognitiva, rejeitando certas evidências e aceitando outras. É a lógica que cada pessoa individual faz para si mesmo, para ajudar a si mesma a estruturar suas próprias crenças. Em alguns, essa lógica inclui argumentar uma verdade absoluta sobre todas as possibilidades.

Aqui estão os três locum refrigérii que eu encontrei (pode haver mais) onde a maioria das conversas sobre deus para mim tendem a acabar:

A primeira é uma visão determinista da vida. Basicamente, e estou simplificando demais aqui – deus tem um plano para todos nós. Os limites do que os seres humanos em nossa capacidade limitada podem conhecer não nos permite entender completamente o plano de deus. Todo sofrimento e adversidade fazem parte desse plano (estão permitidos) e tem um propósito. Dependendo de com quem você fala, essa visão é frequentemente associada à crença de que deus é simultaneamente bom e onipotente.

Embora esta visão seja atraente para muitos – eu mesmo estou completamente desconfortável com ela, por algumas razões:

a) Não há como provar se o sofrimento acontece por um motivo ou porque temos a necessidade de explicar (para reduzir a dissonância cognitiva) por que coisa ruins acontecem a pessoas boas. Independentemente disso, acho que é um pouco paternalista quando alguém me diz que o que eu estou passando tem um propósito diferente daquele que eu mesmo descobri ou possa especular atribuir. Em muitos  casos, o sofrimento é aleatório e não tem um propósito. Não há razão por que uma criança nasce em um ambiente de pobreza e enfrenta a morte pela fome e outra não.

b) Como não acredito que o sofrimento aconteça por uma razão, a onipotência e a bondade absoluta para mim se tornam uma falácia. Ser onipotente e não prevenir o sofrimento não é bom, e ser bom, mas não impedir o sofrimento nega a onipotência, pois deus ou quer e pode impedir os males, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer e nem pode;

A visão de que os humanos não podem entender o plano de deus é o que eu vejo frequentemente empregado como um argumento infalível/válido. Mas basicamente, é um tipo de lógica onde é impossível provar que se está errado. Freud, que era um escritor brilhante, argumentou em A Interpretação dos Sonhos que, se alguém não tem uma memória infantil traumática – como um Complexo de Édipo – é porque essa pessoa a reprimiu. Não há como argumentar contra esse argumento – ou você tem o complexo ou está reprimindo. A razão pela qual não gosto deste argumento é que eu não acho que progrida para questionamentos e para compreensões mais profundas. É uma barreira e não uma maneira de avançar o pensamento. Frequentemente, dizer que não entendemos o plano de deus é usado para eufemizar o fato observável de que o sofrimento acontece sem nenhuma razão aparente e com aleatoriedade.

O segundo local de conforto é aquele em que a fé é o relacionamento pessoal com deus . Muitas vezes leio os debates na seção de comentários sobre conflitos fundamentalistas, muitos dos quais ressoam algo assim: “Essas pessoas não são cristãs / muçulmanas verdadeiras, a Bíblia / Alcorão ensina claramente que matar é errado. O verdadeiro [insira o nome de uma religião aqui] é sobre o seu próprio relacionamento pessoal com deus.

Talvez eu goste dessa visão. Eu tenho muitos amigos próximos para quem esta é a base do seu sistema de valores. Mas, pensando melhor ainda estou insatisfeito, e aqui está o porquê:

a) Dizer que as ações de alguém em nome da religião devem ser desconsideradas, já que uma interpretação “verdadeira” dessa religião é um pouco parecida com dados de coleta seletiva. A religião tem sido um aspecto persistente da civilização humana durante séculos, muitas vezes a musa por trás de grande parte da arte, filosofia e moralidade na história humana. Muitos daqueles que fazem tremendos sacrifícios e fazem trabalho social para ajudar os menos afortunados deste mundo acreditam que estão fazendo o trabalho para/com deus. No entanto, a religião também pode ser um precipitante para a destruição. Guerras foram travadas em nome da religião que matou milhões de pessoas. E esse soldado, seja da Cruzada ou da Al-Qaeda, também acredita estar fazendo a obra de deus. E essa crença é igualmente intensa e pura em seu raciocínio como a freira que cuida de uma criança doente, apenas a expressão dessa crença é diferente.Se é a expressão em si que importa, então a crença em deus não tem valor inerente além da qualidade das ações que se manifestam a partir dessa crença.

b) Definir a fé de alguém como um relacionamento pessoal com Deus é, novamente, um argumento que busca considerar-se acima de verificação de falseabilidade – não pode ser desafiado ou questionado porque é somente entre esse indivíduo e deus, como nem você nem eu temos nenhum negócio lá. É uma posição confortável de se estar. Eu entendo o apelo dessa lógica, mas para mim eu acho um pouco insular.

Então isso me leva ao terceiro lugar do conforto. Há um lugar onde eu também me sinto confortável em minha própria fé – que é, antes, uma visão utilitarista da religião.

Isto é, o valor da fé de alguém é uma função onde f (x) = expressão daquela fé como julgada por aqueles que são impactados por aquela fé.

Em outras palavras, seja qual for o fundamento de sua fé – em deus, na humanidade, em si mesmo – é a expressão dessa fé sobre os outros que importa. O que faz de você uma boa pessoa é o impacto que sua fé tem como julgado pelos outros seres humanos que são tocados por ela.

Eu digo julgado por outros seres humanos, porque eu pessoalmente não gosto da expressão “ninguém, exceto deus pode me julgar.” Isso poderia ser bom se você vivesse em um mundo onde é só você e deus. Mas todos nós vivemos com outros seres humanos, então devemos contá-los em nossa matemática moral.

Além disso, compreender verdadeiramente o seu próprio impacto é um processo complicado – obriga-o a fazer continuamente perguntas e a desafiar os seus próprios motivos, faz com que tenha empatia. Pede que você enfrente o melhor e o pior dentro de si mesmo. Chekov escreveu uma vez que “o homem se tornará melhor quando você mostrar a ele o que ele realmente é”. Eu acho que isso é maravilhoso.

Quando eu examino minha própria fé – e a minha vem da humanidade, caso você esteja se perguntando – eu uso alguns truques para me manter no caminho de me tornar a pessoa que eu gostaria de ser.

a) Faça perguntas. Desafie suas próprias respostas. Isso não significa não ter uma opinião, significa reconhecer que a maioria das opiniões são apenas alvos em movimento para praticar a reflexão. Você notará que os que você atingiu consistentemente acabam se tornando valores fundamentais. Se eu tivesse filhos, perguntaria à eles as perguntas que fizeram na escola, e não apenas o que aprenderam. Curiosidade é o que lentamente empurra os limites do conhecimento humano, seja sobre o universo ou sobre nós mesmos. Enquanto você estiver curioso poderá encontrar possibilidades.

b) Nunca pare de melhorar sua autoconsciência.Aprenda a pensar os melhores e piores pensamentos sobre si mesmos. Entenda a ampla gama de quem você pode ser. Os seres humanos são criaturas extraordinariamente complexas – e tenho visto em mim mesmo inseguranças, segundas intenções, tendências manipuladoras e astúcia geral, tanto quanto me surpreendi em consideração, gentileza, gratidão. A autoconsciência é o que me mantém humilde e me dá empatia.

Quanto mais eu posso entender o meu próprio impacto sobre os outros e ver isso de seus olhos, mais vejo como é difícil ser uma boa pessoa. Isso me permite ser mais autêntico às minhas próprias imperfeições.

Eu não acredito em um poder mais alto do que muitos ao meu redor, e acredito que algumas coisas são mais prováveis ​​do que outras (como a evolução versus o criacionismo, por exemplo). Eu acredito que os humanos são feitos da mesma coisa que as estrelas, o que é muito legal se você pensar nisso. Eu gosto de ciência porque, como disciplina, continua a tentar desmentir sua própria verdade e reconhece o que não sabe. Eu gosto de disciplinas onde é costume levantar uma sobrancelha e questionar.

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