Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um filme estadunidense de 2004, do gênero de comédia dramática, romance e ficção científica, dirigido por Michel Gondry e com roteiro escrito por Charlie Kaufman. É protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet.

Conta a história de um casal que só vê o lado ruim de seu relacionamento.

Clementine/(Kate Winslet) desiludida com o fracasso da relação, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele.

Após saber da atitude de Clementine, Joel entra em um estado melancólico, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo.

Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la…


O filme utiliza elementos de ficção científica, suspense psicológico, e uma narrativa não linear para explorar a natureza da memória e do amor romântico. O filme é aberto a várias interpretações; no entanto, o seu tema principal é a memória, o passado e sua função para formamos o conceito de identidade.

O conceito de identidade

Um dos conceitos abordados no filme é conceito de identidade, conceito este que não é claramente explicado ou definido. Os próprios psicólogos não apontam condições exatas sob as quais a identidade é formada, apenas que temos personalidade para tomar nossas próprias decisões.

Isso significa que nossas decisões nos definem como indivíduos?

Talvez parcialmente, mas a identidade pessoal é estabelecida ao longo da vida, de experiências e conflitos.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças confronta o complexo conceito humano que criamos em nossas mentes: identidade pessoal.

Se eu lhe perguntasse sobre a sua memória de infância mais sublime, preciosa e comovente, o que viria à sua mente?
Se eu lhe perguntasse sobre o motivo de sua maior e mais profunda angústia e desespero?

Seja o que for, traz de volta a sensação de nostalgia, aquele desejo sentimental e pueril de uma dia passado ou Aquele dia em que nada seria capaz de florescer.

Essa memória é apenas uma dentre muitas – por mais enterradas, por mais maravilhosas e por mais sombrias – que ocupam uma quantidade crítica de espaço em sua mente e se juntam no mosaico da sua identidade pessoal. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças descreve a ideia de que uma grande quantidade de identidade é derivada de dentro de nossa memória.

Depois de apagar suas memórias de Clementine, Joel está longe ser o mesmo homem retratado no caso de seu primeiro encontro. Ele parece desamparado, meio perdido; Tirando as experiências que ele tinha na memória, Joel também destruiu uma parte de si mesmo.

Clementine não se saiu melhor, ficando assustada e perdida, enquanto ela era forte, independente e selvagem antes de apagar Joel da memória. Ela também sentiu como se uma parte tivesse desaparecido.

Como nossas memórias desempenham um papel tão importante na formação de nossa identidade?

Para Joel e Clementine, limpar suas memórias um do outro teve um efeito profundo. Uma indicação importante dessa mudança ocorre quando Joel não se lembra da música “My Darling Clementine”, que ele havia cantando na primeira vez em que a conheceu como uma forma de paquerar, mas no segundo primeiro encontro ele nem conhece as palavras. Esse ponto da trama indica que as memórias uma do outro não foram tudo o que foi perdido. Uma música que sua mãe lhe ensinara quando criança também se fora e com essa lembrança o sentimento de segurança fornecido neste evento.

Continuando

O filme continua a se aprofundar na ideia de identificar as formas de memória, retratando Clementine da perspectiva de Joel e suas experiências percebidas com ela.

Vemos Clementine tomar forma através de Joel, primeiro como uma mulher estranha e obscura que ele conheceu em uma viagem espontânea a Montauk, e conforme suas memórias fluem, começamos a ver a mulher amorosa, forte, independente e impulsiva que compartilhava suas fraquezas e preocupações internas.

Vemos todos os aspectos que compõem Clementine, desde a mudança de cabelo até a mudança de humor. Vemos nela tudo o que Joel já viu; às vezes louca e divertida, outras amável, inteligente, com muitas ideias sobre o mundo. Ela podia ser absolutamente mesquinha e ranzinza e outras vezes completamente maravilhosa.

Foi-nos mostrado o desenvolvimento da relação, bem como o surgimento de características cada vez mais agravantes em Clementine.

A história passa a nos mostrar o fim do relacionamento de um casal derrotado e exausto que não aguentava mais um ao outro, e então vimos como eles chegaram a esse ponto.

Vimos o núcleo de quem Clementine era e, à medida que cada camada das memórias se retraía, vimos como Joel também havia mudado ao longo do relacionamento.

Os relacionamentos sempre progridem até o ponto em que você lida com as peculiaridades um do outro ou não suporta uma coisa que o outro faz. Também podemos manipular facilmente nossas memórias, como mostrado por Joel tentando esconder Clementine em outro lugares de sua mente.

E, portanto, é possível que a representação mais antiga de Clementine seja mais precisa em geral, ou talvez as últimas memórias de Clementine não sejam exageradas ou distorcidas pela memória de Joel, enquanto ele lida com a dor do relacionamento em ruínas.

Contraste

Os seres humanos não amam, não sem uma ampla gama de expectativas. Em vez de ver o “nosso amor” como a pessoa que poderia dar consistência e destacar certas nuances ao nosso ser, o ente querido é simplesmente subordinado ao nosso desejo de perfeição.

No momento em que o relacionamento está progredindo e outro não está mais em conformidade com a imagem idealizada que construímos no início da manhã do amor, nos sentimos frustrados e, às vezes, pensamos em encerrar o relacionamento para continuar nossa busca pela “alma gêmea perfeita”.

Muitas vezes esquecemos como os seres humanos são feitos o que é considerado um “defeito”, que pode ser um traço de personalidade que o diferencia de seus companheiros. É isso que Joel percebe ao passar pelo processo de apagar sua memória: são as idiossincrasias de Clementine que ele gostava, sua espontaneidade, sua impulsividade, sua loquacidade, enfim, as características de sua personalidade contrastam com as dele.

E é essa oposição entre as duas personalidades que leva primeiro ao atrito entre o casal e depois à ruptura, mas essa oposição também os levou a ficarem juntos.


Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças mostra-nos que a identidade pessoal de uma pessoa não pode ser completamente despojada ou copiada por outra; cada pessoa é “insubstituível”. Patrick tenta roubar a identidade de Joel para ganhar o carinho de Clementine. Mas, no final das contas, ele falha porque, embora tivesse as palavras e ações de Joel, Patrick não poderia ter os pensamentos, a aparência ou a verdadeira identidade de Joel. Ela se apaixona novamente pela verdadeira versão de Joel e não por  Patrick, porque a identidade mais importante que contemos está dentro de nós.

No geral, acredito que o maior atrativo deste filme é que você não poder ficar sem feridas. Para destruir o que você conheceu, não importa a dor, é de onde viemos. Pouco a pouco somos moldados, formados, vencidos por nossas experiências. Não passa um dia em que alguém não diga que daria tudo para esquecer aquele momento angustiante, para esquecer alguém que nos prejudicou ou para esquecer aspectos importantes que perdemos. Essas declarações são atos de desespero, e esquecemos o bem que está por baixo. Pensamos que há felicidade no esquecimento, porque a ignorância é uma benção. Você teria uma mente livre de fracassos, desprezo, traumas, misérias. No entanto, é quando esquecemos que estamos mais perdidos. Nós deixamos de ser nós mesmos.


“Nesta profunda solidão e terrível cela,
Onde a contemplação celestial do pensamento habita,
E sempre reina a meditação melancólica;
Que significa esta agitação nas veias de uma virgem?
Por que meus pensamentos se aventuram além do último retiro?
Por que sente meu coração este amplo e esquecido calor?
Ainda, ainda eu amo! De Abelardo veio,
E Eloisa ainda deve beijar seu nome.

Querido fatal nome! Restos nunca confessados,
Nunca passarão estes lábios no sagrado silêncio selado.
Ocultá-lo, meu coração, dentro desse disfarce fechado,
Quando se funde com Deus, sua falsa idéia amada:
Ó mesmo não o escrevendo, minha mão – o nome aparece
Logo escrito – a purificação acabo com minhas lágrimas!
Em vão a perdida Eloisa chora e reza,
Seu coração ainda manda, e a mão obedece.

Inexoráveis paredes! cuja obscura ronda contém
Arrependidos suspiros, e amarguras voluntárias:
Vós rochas fortes! Que santos joelhos desgastaram;
Vós grutas e cavernas inalcançáveis com horrível espinhas
Santuários! onde as virgens mantiveram seus pálidos olhos,
E a tristeza dos santos, cujas estátuas aprenderam a chorar!
Embora frio como você, imóvel, em silêncio crescente,
Eu ainda não esqueci-me como pedra.

Nem tudo está no céu enquanto Abelardo tem parte,
Ainda a natureza rebelde mantém a metade de meu coração;
Nem a oração nem os jejuns acalmaram seus impulsos persistentes,
Nem as lágrimas, ou a idade, o ensinaram a fluir em vão.

(…)

Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa.
Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Cada prece é aceita, e cada desejo realizado;
Trabalho e descanso mantidos em iguais períodos;
Obedientes sonhos dos quais podemos acordar e chorar;
Calmos desejos, afetos sempre furiosos.
Deliciosas lágrimas, e suspiros que bóiam no paraíso.
Graça que brilha a seu arredor com raios serenos.
O murmúrio dos anjos arrulha seus sonhos dourados.
Por sua eterna rosa que floresceu no Éden.
E as asas dos serafins derramam perfumes divinos,
Para ela, o esposo prepara o anel nupcial,
Para ela as brancas virgens cantam a canção da boda,
E ao som das harpas celestiais ela morre
E se desfaz em visões do dia eterno.

(…)

– Alexander Poper