O problema com a ideologia

Na cultura de hoje, “todo mundo” está se agarrando a algum tipo de grupo ideológico para se identificar. Um grupo, uma ideologia… republicana, democrata, libertária, feminista, humanista, niilista, socialista, comunista, marxista, anarquista, vegana, cristã, ateísta, e a lista continua.

Agora, não é necessariamente ruim se identificar com um grupo ou ideologia, é da nossa natureza humana se identificar com grupos. Essa identificação que formulamos nos ajuda a entender nosso mundo e nosso significado nele. Mas talvez devêssemos recuar só um pouquinho e considerar a possível toxicidade de seguir ferrenhamente uma ideologia, estreitar a porta de entrada em nossa mente para novas informações e depois ficarmos suscetíveis de sermos manipulados pelos agentes influenciadores dessas ideologias.

Acho que foi Krishnamurti que disse:

Quando você se considera indiano, muçulmano, cristão, europeu, americano, latino-americano, ou qualquer outra coisa, está sendo violento. Você vê por que é violento? Porque você está se separando do resto da humanidade. Quando você se separa pela crença, pela nacionalidade, pela tradição, isso gera violência. Portanto, um homem que está procurando viver em paz não pertence a nenhum país, religião, partido político; ele está preocupado com a total compreensão da humanidade.

Os grupos ideológicos com os quis orgulhosamente nos alinhamos são os que frequentemente nos tiram de um estado de paz. E quando os indivíduos estão fora de um estado de paz, a sociedade também está fora de um estado de paz e inevitavelmente temos violência (em variadas formas e nuances).

E você sabe o que é fascinante… todos esses vários grupos ideológicos que inevitavelmente acabam colidindo? Todos eles proclamam ter um alto nível moral, são justificados e acreditam que estão enfrentando algo ruim. Assim, acreditando que seu grupo está certo e o outro errado, você traçou sua própria linha na areia para justificar a agressão.

Sua ideologia

Mas o que nos faz identificar com uma ideologia tão fortemente? Onde isso nos leva ao desejo de lutar, discutir com outros sobre supostas ideologias opostas?

Gostamos da sensação de nossa agressão sendo aplaudida como justificada. Uma reação que transborda em um sentimento de superioridade moral.

Mas o que une esses grupos? Está em ter perspectivas semelhantes? Ou eles têm respostas emocionais semelhantes às coisas que a sociedade enfrenta? As pessoas que se identificam com certas ideologias se identificam com a indignação – a justiça moral – dessa ideologia.

Libertários: indignados com a coerção e os abusos pelas mãos do governo.

Feministas: indignadas com a opressão das mulheres pelos homens.

Nacionalistas: indignados com a entrada de imigrantes em seu grupo identificável – nesse caso – o país em que nasceram.

Socialistas: indignados com o capitalismo que oprime a classe trabalhadora.

Meta-indignados: indignados com as pessoas que ficam indignados com o tudo o que se opõe à sua ideologia.

(provavelmente esqueci uns mil grupos aqui)

O que todos eles têm em comum além da indignação? Bem, todos apontam sua indignação, agressão e retidão moral para ideologias percebidas como opostas.

Sua identidade

Uma vez que entramos em um grupo, proclamando nossa lealdade, nossa ideologia se torna parte de nossa identidade. E, infelizmente, uma de nossas mentes, muitos atalhos mentais, nos leva a criar separações simplistas demais de vários pontos de vista. Reduzimos a complexidade de vários pontos de vista, ideologias e grupos em resumos simplificados e digeríveis (talvez eu esteja fazendo isso agora mesmo). Isso então nos leva a suposições imprecisas do certo e do errado, nós contra eles e do bem e do mal.

Veja bem, grande parte de nossa agressão, raiva e retidão moral decorre de uma narrativa imprecisa que criamos para proteger nossa identidade. Uma vez que estamos nesses grupos, procuramos histórias e informações que se encaixam em nossa narrativa preconcebida. Além disso, nos torna mais aptos a descartar evidências opostas que vão contra a identidade que criamos. Tornado-nos mais facilmente enganados e mais propensos a espalhar informações destorcidas e falsas.

Precisamos parar de nos separar com base em agrupamentos arbitrários. Devemos entender que estamos nessa realidade juntos, em um planeta, entre muitas criaturas vivas, e somos um grupo humano.

Lembre-se de que as pessoas a quem nossas narrativas parecem se opor têm suas próprias histórias de vida, narrativas, ambiente e educação que as trouxeram à sua forma atual. Embora uma parte de nós provavelmente sempre seja tribal, precisamos aprender que as identidades que possuímos não são imutáveis. Precisamos transformar a inequação em uma equação, competição e cooperação. Nossa espécie humana evolui para cooperar, a conquista social da terra, está dentro de nossa capacidade transformar todos contra eles em todos contra ninguém.

Deixar de lado nossas diferenças seria um maravilhoso milagre que traz a paz mundial. Mas não estou dizendo que é possível deixar todas as diferenças de lado. Também não é realista deixar de lado nossos vários agrupamentos de política, nacionalidades e religiões.

O ponto é que temos uma escolha a fazer. Questionaremos os grupos aos quais “juramos lealdade”, mesmo que isso signifique questionar nossa identidade? Questionaremos a autoridade que concedemos aos grupos? Consideramos cuidadosamente as oposições? E deveríamos considerar as complexidades das identidades proclamadas de nossos semelhantes?

Os rótulos, narrativas que criamos são histórias de ficção criada por nós. Um grupo é inegável – somos humanos. É algo que compartilhamos e devemos lembrar.

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