Carta de Charles Bukowski sobre a Censura

22-7-85

Caro Hans van den Broek:

Obrigado pela sua carta comunicando que a biblioteca de Nijmegen tirou um de meus livros de seu catálogo. Acusado de ser preconceituoso contra negros, homossexuais e mulheres. De ser sádico pelo sadismo que contém.

Os preconceitos que eu mais temo são contra o humor e a verdade.

Se meus escritos depreciam negros, homossexuais e mulheres, é pelas coisas ruins que aqueles que conheci fizeram. Existem muitos “males” – cães malvados, má censura; há até homens brancos malvados. A diferença é que quando você escreve sobre homens brancos “malvados”, eles não reclamam. Preciso dizer que há negros “bons”, homossexuais “bons” e mulheres “boas”?

No meu trabalho de escritor, apenas fotografo em palavras aquilo que vejo. Se escrevo sobre “sadismo”, é porque ele existe, eu não o inventei, e se algum ato terrível ocorre em um de meus livros, é porque estas coisas acontecem em nossas vidas. Eu não estou do lado do mal, se é que tal coisa abunda por aí. Em meus escritos, eu nem sempre concordo com o que acontece. Não fico chafurdando na lama por puro prazer. É estranho também como as pessoas que protestam contra os meus escritos passam por cima dos trechos em que expresso amor e alegria e esperança, e tais trechos existem. Meus dias, meus anos, minha vida conheceu altos e baixos, claros e escuros. Se eu escrevesse sempre e somente sobre a “luz”, e nunca mencionasse o outro lado, como artista, eu seria um mentiroso.

A censura é o instrumento daqueles que precisam se esconder da realidade e escondê-la dos outros. O medo que sentem, no fundo, é somente incapacidade de encarar o real, e não consigo sequer sentir raiva deles. Sinto apenas esta tristeza profunda. Em algum momento de sua criação, eles foram protegidos contras os fatos totais da nossa existência. Foram ensinados a olhar apenas de uma forma, quando existem muitas.

Não me sinto desolado porque um dos meus livros foi perseguido e retirado das estantes de uma biblioteca municipal. De certa maneira, me sinto até honrado de ter escrito algo que os retirou de sua entediante ignorância. Mas eu fico magoado, é claro, quando o livro de outra pessoa é censurado, pois aquele livro geralmente é um ótimo livro e destes, há poucos. Ao longo dos tempos, este tipo de livro acaba se tornando um clássico, e o que antes fora imaginado como chocante e imoral, é hoje leitura obrigatória em muitas de nossas universidades.

Não estou dizendo que meu livro é um destes, mas estou dizendo que nos dias de hoje, neste momento em que qualquer momento pode ser o último para muitos de nós, causa extrema irritação e uma tristeza indescritível ver que ainda temos entre nós pessoas pequenas e amargas, os inquisidores e os que vociferam contra a realidade. Mas eles têm um lugar entre nós, são parte do todo, e se não escrevi sobre eles até hoje, deveria; talvez tenha feito isto aqui, e talvez baste.

que todos melhoremos juntos.

Charles Bukowski

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